Vanessa Brandão
   
 
   



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Qual a nossa cara?

Meu primeiro artigo publicado na Folha

Era só mais um feriado dos tantos que eu já tinha passado em Boa Vista, nos cinco anos morando em outra cidade. Mas nesse eu resolvi ficar. Explicando sentimental e poeticamente meus motivos, posso dizer que foi a necessidade de ver um fim de tarde calmo, com pôr-do-sol mais laranja que todos já vistos até hoje. Foi a vontade de ver a noite chegando e não ter medo de ficar nela. Ver as caras conhecidas desde a adolescência e me sentir em casa em cada lugar. Ir a praia de rio no verão, fazer lual, comer paçoca com banana, ir para sítio tomar banho de igarapé de água transparente e  entre tantas outras coisas simples, ter a família em casa depois de um dia trabalho.

Mas, só nessa volta é que pude ver com olhos críticos minha cidade, e perceber que boa parte da minha geração parou no tempo. Os anos passaram e nós não temos cara. Onde estão os jovens de vinte e poucos anos de Boa Vista? Nos empregos efetivos das instituições públicas eles são contados nos dedos, porque quase todas as vagas são ocupadas por pessoas de outros estados. Na política também não marcam presença nem fazem diferença. Não quero acreditar que tenham pulado no poço da fofoca, da intriga e da mediocridade, vivendo de subempregos passageiros, pensando e discutindo frivolidades.

Me pergunto... Qual é a cara da minha geração? Que músicas nos tocamos? Que filmes nós já fizemos? Que livros já publicamos? Quantos manifestos já tramamos? Eu só posso pedir forças positivas desse mundo estranho para que aquele garoto que fez uma banda de rock e resolveu compor suas próprias letras se multiplique, que aquela moça bonita que gastou dinheiro do salário baixo comprando livros de Nietzsche e Dostoiévski  seja imitada. Que aquela outra, fã de balada, mas que hoje sai menos porque precisa guardar dinheiro pra pagar a faculdade seja aplaudida e que aquele cara que estuda fora mas sonha em voltar pra Roraima e ser um político honesto se quadruplique.

Torço também pela turma reunida para trocar idéias sobre vida e filosofia se achando a cúpula intelectual da cidade. Porque são todas essas pessoas unidas que vão construir esse Estado, e não os que esperam o cargo comissionado em casa, ou  os que vão pra rua levantar bandeiras esperando ser recompensado pelo cargo comissionado ano após ano. Nem aqueles que acham música regional brega, sem tão pouco os que deixaram a vida passar comprando bebida na Venezuela, enchendo a cara e se drogando, gritando por aí ‘vida louca’, se esmurrando em festas para chamar atenção pela força já que não podem chamar atenção pela cabeça. Eu vou continuar procurando uma cara mais bonita para a minha geração.  

 



Escrito por Vanessa Brandão às 22h04
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